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Envelhecimento e filosofia

Atualizado: 31 de out. de 2025

Autor: Guilherme Berlanga Moura   Introdução

Ao longo do percurso da filosofia, é cabível dizer que pouco fora explorado um estágio de conquista essencial para todo ser humano: o envelhecimento. Adentrando nesta ausência de conteúdo literário e filosófico, cabe às palavras a seguir promoverem reflexões contemporâneas sobre uma circunstância humana por vezes negligenciada pela filosofia.

Daí, inicialmente, o que aqui é tomado como premissa é a liberdade extrema do indivíduo, proferida por Sartre. Em seus próprios termos, todavia, tendo-o como base, não entendo no cerne da psique humana esses termos de forma literal. Neste caso, entendo-a como uma liberdade existente, porém não percebida — o que nos faz aderir às dinâmicas sociais por não haver uma observação interna do próprio indivíduo em todos os seus entes, muitas vezes.

Dentre tantas dinâmicas envolvidas, uma delas cuja presença é inegável na sociedade é o estereótipo. No contexto do ato de envelhecer, mobiliza-se a ideia de que aqueles que são mais velhos — e, portanto, estão mais à frente no processo de envelhecimento — são todos homogêneos em comportamento. “Irascíveis”, “caducos”, “cabeças-duras” e muitas outras infelizes palavras são mencionadas.

Porém, tal como Cícero, o filósofo de Roma, dizia: o envelhecimento não é igual para todos. Destoando-me de termos científicos, por ora, e observando a construção do indivíduo, percebo que a mente é o pilar fundamental de tudo — capaz de ora significar, ora distorcer tudo aquilo que os sentidos corporais alcançam.

Assim, retomando a premissa anterior de que muitas vezes não olhamos para nós mesmos e não nos indagamos sobre aquilo que raciocinamos, isto aplica-se aqui. Uma vez que, ao pensarmos que a mente é quem nos condena, ela também é capaz de acatar a estes estereótipos e viver atolada em uma fraqueza.

Dadas essas informações, cabe o questionamento: os estereótipos realmente são coesos? Como aqueles mais à frente no envelhecimento podem alocar-se em nossa sociedade?

Posição Social Daqueles à Frente

Ao observarmos as circunstâncias atuais, sem quaisquer dúvidas ou indagações, percebemos que aqueles à frente — os idosos, com maior vivência — vivem de forma separada dos demais.

Analisando esta situação, é demasiadamente propenso questionar-me: no campo das proposições, tal manifestação socioespacial é devidamente correta? Presumo que esta seja falsa. Ora, se levarmos em consideração a experiência como fundamental para a construção do conhecimento, ela faz com que necessitemos do amparo daqueles que estão à frente.

Portanto, se necessário ele é, separado não deve ser. Adentrando diante deste silogismo, é perceptível que as condições dos à frente não se encontram boas: constantemente são privados de muitos de seus direitos condicionais e pré-condicionais.

E, sendo eles privados destes direitos, não é possível que muito daquilo que os anciões deveriam fazer seja então efetuado. Destarte, a posição social dos idosos é degradante, adoecedora e excludente.

Anseios Humanos e a Repulsa do Envelhecer

Percebo aqui que essa repulsa dos seres humanos ao envelhecer parte do nosso anseio de vivermos a ideia de que para sempre manter-nos-emos nas mesmas condições — basicamente, como jovens, alegres, saltitantes.

Até porque é mais fácil procurar sentido onde não há e ignorar a representatividade do tempo (como já dizia Schopenhauer) do que visualizar a si mesmo de forma multifacetada. Sustentamos um apego a uma matéria desprovida de quaisquer referências e ignoramos completamente que é a apreciação de pequenos momentos que compõe a aquarela do ser humano.

Ideologias, religiões, crenças — tudo é subvertido a uma utilidade: o quanto quero, o quanto posso, e o quanto devo. E, assim, não deve ser.

A fase maior, aquela que vem ao fim da vida, deve ser uma vitória, um ganho, um registro de que o sopro da vida pode ser cumprido. Jamais poderemos escapar deste ciclo. Presumo, então, que a única escapatória de repente possa ser desmitificar aquilo que é convencionado.

Pois, aprendemos que a fase maior é negativa, aprendemos que devemos nos ocupar no aqui e agora com aqueles malditos ciclos e não compreendemos que é do pequeno que o grande se forma, que é do pouco que o muito se comprime; ou seja, é a partir das pequenas experiências que contamos quem somos. Afinal, o todo é a maior dádiva do ser humano.

Todavia, se podemos aprender que algo é ruim, ele pode então vir a ser bom. Associamos uma falsa essência a nós mesmos e repensar nossa ontologia é necessário, para então ser possível inspirar um agora da forma correta.

Coletividade e Subversão: Ubuntu e Nós

Agora que pensei no que é necessário, certa vez, superar, devo olhar os fatos como são, sem me prender a um encantado mundo de ilusões e amargas ideias de onde nada há.

Nestes termos, analisando em termos objetivos, oriento-me ao que há. E, ao orientar-me, enxergo uma sociedade ubuntu como exemplo de coletividade. O ubuntu exibe que a ideia de “essencial” material pode ser quebrada. Além deste exemplo, todos os inúmeros processos de formação de culturas demonstram isso.

Por conseguinte, questiono se existe mesmo tal ontologia ou se tudo não fora dialética pensada por nós (já dizia Sartre). E mesmo que haja tal ontologia, seria ela então imutável, como um grande oceano com vários rios que dão fim ao mesmo local?

Ao finalmente olharmos para os que à frente estão, através do espírito coletivo, por boas práxis, desejos, anseios e, sobretudo, uma emancipação do espírito, podemos repensar em incluir os idosos.

Como? Já não há mais espaço excludente: temos uma comunidade que predomina em uma arquitetura homogênea. Já não há mais perniciosidade, pois outrora as convenções trocaram suas faces, implicando então que “desconvencionalizamos” aquilo que é pura convenção, mas que, por um púlpito da vida, dizemos natureza ser.

Entendo que, para que os idosos possam alcançar a dádiva maior da vida, é necessário construir a cultura da glória do trajeto. Ela é a presunção de que o amor às circunstâncias — ou amor fati — nos orienta a uma vitória final.

Para que por fim ela seja, mudar o imutável é necessário. O tempo pode, talvez, no fim de tudo, ser uma enorme roda, não uma linha reta pronta. A força, o aspirar ao micro, é a maior demonstração de capacidade que somos capazes de demonstrar, e é somente no caminhar que possível ela é.

Se concluído este caminhar for, por que excludente ele deve ser? O que é doença para alguns é glória para outros — para aqueles que dirão da fisionomia. Logo, se um à frente ou mais tem-se, é porque ele demonstra a vitória e a superação de um ciclo.

O maior fundamento que devemos ter é o seguinte: observar um à frente, um idoso, é observar que ele é resultado de um eterno retorno. Ao mesmo tempo que incluído ele deve ser, os atrás devem se questionar, tal como Nietzsche: se minha vida fosse para ser vivida em loop eterno, eu ficaria feliz pelas minhas escolhas, ou deprimido?

É sobre isso a inclusividade dos idosos: para que mesmo os à frente possam continuar a construir escolhas, mesmo quando aquilo que travestido de “natural” diz o contrário.

Considerações Finais

Ao final deste texto, espera-se que o leitor possa compreender os conceitos do envelhecimento — um campo tão pouco explorado no conhecimento — e, com isso, possa entender que o envelhecimento é um estereótipo muitas vezes.

Afinal, vivemos como se fôssemos jovens. Mas, todavia, digo-lhes: que tal invertermos a lógica? Visto que, muito em breve, nossa civilização se tornará majoritariamente idosa.

 
 
 

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